‘Quando eu falei que plantava maconha, virei a maconheira e traficante da rua’

‘Quando eu falei que plantava maconha, virei a maconheira e traficante da rua’

Sobre as colunas

As colunas publicadas na Cannalize não traduzem necessariamente a opinião do portal. A publicação tem o propósito de estimular o debate sobre cannabis no Brasil e no mundo e de refletir sobre diversos pontos de vista sobre o tema.​

Tudo começou quando Nice Assunção encontrou na cannabis um remédio para a neta. Hoje ela tem que enfrentar o preço de ser uma ativista da causa 

‘Quando eu falei que plantava maconha, virei a maconheira e traficante da rua’
Foto: Cannalize

Eunice Assunção (62), mais conhecida como Nice, é terapeuta e mora em Itaim Paulista, na zona leste de São Paulo, com a sua filha Gisele Soares (42) e a sua neta Stela Oliveira Lopes (18). A casa e a pequena família poderiam passar despercebidas, mas para quem mora na rua, é a casa das maconheiras. 

Contudo, Nice não fuma maconha, nunca fumou. Na verdade, nem tem vontade, diz que a fumaça pode fazer mal para ela que já tem muitos problemas. 

O que ela faz é cultivar algumas plantas para fazer o óleo e conter as crises da sua neta. Além de compartilhar com outras pessoas que não têm acesso. “É um peso que a gente paga (ser chamada de maconheira) e eu pago com um maior prazer pois pra mim o que importa é a minha consciência.”

“Tudo o que a minha neta tinha era o sorriso”

Nice conta que tudo começou há alguns anos, quando a escola da Stela pediu para que a família passasse a menina em um psiquiatra, pois ela estava se agredindo, um dos sintomas das crises epilépticas da menina. 

Stela passou a tomar remédios fortes que de fato ajudaram o sintoma, mas que a deixavam apática e sem emoção nenhuma. “Tudo o que ela tinha de beleza era o sorriso, mas até isso perdeu, porque ela ficava uma morta viva”, conta a avó.

Foi então que a terapeuta passou a frequentar o curso de cannabis medicinal da Paróquia de Ermelino Matarazzo, na zona leste. Ministrado junto à Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), hoje o projeto já educa milhares de pessoas todos os anos e de todo o país sobre a planta.

Foi no curso que uma pessoa (chamada carinhosamente de anjo sem asa) lhe doou um frasco e ela viu a melhora da neta em pouco tempo. Em dois meses a menina já tinha parado de usar todos os outros medicamentos.  

“Não saía mais da igreja, fiz cinco cursos, aprendi a plantar e fabricar o óleo em casa”, ressalta.

Influência para as outras mães

Ao ver os resultados rápidos e efetivos, outras mães começaram a perguntar o que Nice havia feito para ajudar a neta. Eram mães humildes e sem condições para comprar os produtos de cannabis como ela. 

Atualmente a cannabis medicinal pode ser adquirida tanto através de importações como nas farmácias. Contudo, o custo não é barato. Um frasco de 300 ml pode ter um custo de R$250 a até R$3 mil. 

Por isso, ela passou a encontrar outros “anjos sem asas” para ajudar essas mães. Não demorou muito para que se tornasse uma referência entre pessoas com filhos e netos especiais. “Eu não podia abraçar todo mundo porque eu também tinha, tbm era uma mãe pobre.”, ressalta.

‘Quando eu falei que plantava maconha, virei a maconheira e traficante da rua’
Foto: Cannalize

Cultivando o remédio em casa

Foi então que a terapeuta passou a pensar em cultivo. Através do MMJ (Mães e Mulheres Jardineiras), ela obteve o tão sonhado Habeas Corpus, que lhe deu o direito de cultivar sem ser presa por isso. 

Trata-se de um projeto que auxilia mães e mulheres de baixa renda a terem autonomia para fabricar o seu medicamento ou dos seus filhos, além de capacitá-las para ajudar outras mulheres. 

O projeto fez tanto sucesso nesse primeiro ano, que ganhou destaque nacional. Resultando no primeiro prêmio Troféu Carlini de Solidariedade.

Mas ela sabia que não podia cultivar apenas para si. “Eu podia ficar quieta no meu canto. Eu plantava, tinha esse direito, eu sabia fazer remédio e não precisava dar satisfação para ninguém. Mas essa não era a minha realidade”, complementa.

Nasce uma associação

Ela continuou compartilhando o óleo até que um dia alguém a confrontou. Disse que podia perder o HC, caso continuasse doando o óleo para outras pessoas. 

“Eu pensei: como eu vou parar de ajudar essas mães? Eu quero continuar, e foi assim que pensamos na associação, como uma forma de sair da ilegalidade” explica. 

Hoje a entidade recém-formada chamada “Semente do Amanhã” possui pouco mais de 30 mães.

Luta contra o preconceito

Mas ainda assim, a mãe-avó precisa lutar contra o preconceito. Ela conta que, quando as pessoas do bairro souberam que ela cultivava maconha, a chamaram de “maconheira” e “traficante”. 

“Quando eu falei que estava plantando maconha, virei a maconheira e traficante da rua. Qual foi o dia que me viram fumando ou vendendo maconha? As pessoas só ouvem e já julgam. Se você  falar que a maconha é algo bom, você já é maconheiro, traficante”, explica. 

Consulte um médico 

É importante ressaltar que qualquer produto feito com a cannabis precisa ser prescrito por um profissional de saúde, que poderá te orientar de forma específica e indicar qual o melhor tratamento para a sua condição.

Caso precise de ajuda, disponibilizamos um atendimento especializado que poderá esclarecer todas as suas dúvidas, além de auxiliar na marcação de uma consulta com um médico prescritor, passando pelo processo de importação do produto até o acompanhamento do tratamento. Clique aqui.

Tags:

Artigos relacionados

Relacionadas